Ela precisava se autocontrolar. Estava enlouquecendo, já não sabia mais o que fazer. Tentava achar um elo de ligação entre o que havia passado e o que acontecia, girava em círculos atrás de uma resposta e nada. Na família o consenso era geral: procure um médico. E lá foi ela. Para o lugar menos indicado, mas que diabos!
- Doutor, preciso de ajuda – exclamou a mulher em um dos corredores.
- Perdão, mas… Qual o seu nome? – retrucou o médico, vestindo impunemente seu jaleco branco.
- Isso é o menos importante. Não temos tempo! – bradou, chamando a atenção do homem.
- Tudo bem, qual é o problema?
- Sofro com a redundância alheia. Sou escritora, e, sabe como é…
- Não sei, não. Mas não vejo problema nenhum, não que possa ser resolvido por mim. Deixe-me ir ali, um paciente não resistiu e… Sabe como é? – respondeu o médico com certo ar de ironia. – A viúva do falecido precisa de apoio…
A mulher agarrou o médico pelo jaleco.
- Você não vai sair daqui!
- Mas a senhora é muito abusada. Ganha uma consulta grátis, fora de hora, e quer ter razão? Com licença.
E saiu. E a mulher foi atrás. Precisava de controle, de inspiração, estava enlouquecendo.
- Por que a senhora não arruma um trabalho de verdade? Escrever para quê? Para quem? O governo criou milhares de novos empregos…
- Eu não consigo!
- Então sei lá… Vá escrever a sua própria autobiografia…
O médico só piorava as coisas. Agora, sem saber o que fazer.
- Doutor, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, eu vou explodir…
- Tudo bem. Marcamos uma consulta, o problema é que não há vagas agora. Talvez daqui a três meses, mas podemos antecipar para antes da data marcada…
A mulher, então, só emitia grunhidos. Já não falava mais.
- Alguém ajuda a moça! O estado dela está se degenerando para pior! – gritou um paciente atento a tudo.
- Prefiro mais que atendam a moça do que eu – solidarizou-se o primeiro da imensa fila.
E a coisa foi ficando insustentável. Entre um paciente e outro, e os homens que davam o acabamento final à reforma do setor de radiografia, que já não funcionava normalmente, um calmante e um copo d’água eram o oasis da mulher.
A cura não veio. E não virá tão cedo. Essa é uma história baseada em fatos reais.