A Verdade

Disca-se um número.
O telefone chama.
Alguém atende.

-Alô.
-Pronto.
-Sou eu. Tudo bem?
-Tudo, amor, e você?
-…
-Alô.
-Tudo bem. Vou direto ao assunto.
-Pois vá.
-Lembrei de você ainda agora, e resolvi ligar.
-Só pra me dizer? Que lindo.
-Pois é.
-Diga, lembrou por quê?
-Más lembranças. Prefiro não dizer.
-Como assim?
-Prefiro não dizer. Foi o que eu disse.
-Entendo… Você com isso de novo.
-Pois é. A verdade é que…
-Eu sei qual é a verdade.
-Está vendo? O problema todo é esse.
-Que problema?
-Você acha que sabe de tudo, quando não sabe…
-E você, sabe?
-Na verdade eu não sei. Eu só…
-Eu entendo perfeitamente. Aliás…
-Aliás, a gente precisa conversar.
-Há muito tempo.
-Pois é. Eu só queria dizer umas verdades.
-Que verdades?
-Você sabe.
-Mas você disse que eu não sei.
-Na verdade, quem não sabe sou eu.
-Essa é uma das verdades?
-Não. Não brinca com coisa séria.
-Não estou brincando. Eu só quero te ouvir.
-Então me deixa falar.
-Só estou esperando.
-Sem grosserias, por favor.
-Não há grosserias. Você ligou, agora fala.
-Vou falar. Mas são verdades. Tristes verdades.
-Eu compreenderei, caso seja o que eu estou pensando.
-Talvez seja. Mas se não for, ficarei com cisma. Que poderá ser além do que eu tenho a dizer?
-Encurte suas frases, facilita a vida do leitor.
-Tudo bem. Mas, que poderá ser além do que eu direi?
-Eu não sei, só preciso que você me diga.
-Doa a quem doer?
-Doa a quem doer.
-Você vai me entender?
-Eu prometo. Só preciso ouvir.
-Precisamos conversar.
-É isso que você tem a dizer?
-Não, na verdade…
-É uma verdade.
-Justamente. São várias verdades.
-Desembucha!
-Está vendo? É disso que eu não gosto.
-Disso o que?
-Seja mais gentil. Você não era assim.
-Assim como?
-Você mudou. E muito.
-Isso é uma das verdades?
-Não, é uma constatação. A verdade é que…
-Estou esperando.
-Pois me deixa terminar, então.
-Fala, o nervosismo já me toma conta.
-Não há razão pra nervosismo. Relaxe.
-…
-Alô?
-Tudo bem. Pode dizer, seja lá o que for.
-Bem, a verdade é que…

A verdade é que a ligação caiu, e nunca se soube a verdade.

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Autocontrole

Ela precisava se autocontrolar. Estava enlouquecendo, já não sabia mais o que fazer. Tentava achar um elo de ligação entre o que havia passado e o que acontecia, girava em círculos atrás de uma resposta e nada. Na família o consenso era geral: procure um médico. E lá foi ela. Para o lugar menos indicado, mas que diabos!

- Doutor, preciso de ajuda – exclamou a mulher em um dos corredores.

- Perdão, mas… Qual o seu nome? – retrucou o médico, vestindo impunemente seu jaleco branco.

- Isso é o menos importante. Não temos tempo! – bradou, chamando a atenção do homem.

- Tudo bem, qual é o problema?

- Sofro com a redundância alheia. Sou escritora, e, sabe como é…

- Não sei, não. Mas não vejo problema nenhum, não que possa ser resolvido por mim. Deixe-me ir ali, um paciente não resistiu e… Sabe como é? – respondeu o médico com certo ar de ironia. – A viúva do falecido precisa de apoio…

A mulher agarrou o médico pelo jaleco.

- Você não vai sair daqui!

- Mas a senhora é muito abusada. Ganha uma consulta grátis, fora de hora, e quer ter razão? Com licença.

E saiu. E a mulher foi atrás. Precisava de controle, de inspiração, estava enlouquecendo.

- Por que a senhora não arruma um trabalho de verdade? Escrever para quê? Para quem? O governo criou milhares de novos empregos…

- Eu não consigo!

- Então sei lá… Vá escrever a sua própria autobiografia…

O médico só piorava as coisas. Agora, sem saber o que fazer.

- Doutor, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, eu vou explodir…

- Tudo bem. Marcamos uma consulta, o problema é que não há vagas agora. Talvez daqui a três meses, mas podemos antecipar para antes da data marcada…

A mulher, então, só emitia grunhidos. Já não falava mais.

- Alguém ajuda a moça! O estado dela está se degenerando para pior! – gritou um paciente atento a tudo.

- Prefiro mais que atendam a moça do que eu – solidarizou-se o primeiro da imensa fila.

E a coisa foi ficando insustentável. Entre um paciente e outro, e os homens que davam o acabamento final à reforma do setor de radiografia, que já não funcionava normalmente, um calmante e um copo d’água eram o oasis da mulher.

A cura não veio. E não virá tão cedo. Essa é uma história baseada em fatos reais.

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Esquizofrenia (não, esquizofrênico é o outro!)

Posto diretamente do WordPress, já que não tenho mais Word. Aliás, de uns tempos para cá, aprendi e desaprendi a fazer dezenas de coisas diferentes. Há muito não entro por aqui. Para se ter uma ideia, da última vez que publiquei algo o Michael Jackson ainda estava vivo – e, se bobear, ainda era negro. Michael Jordan ainda estava no Chicago Bulls. E o Michael – filho de uma vizinha – ainda comemorava seus três anos. Lembro-me como se fosse hoje, um bolo solado, um glacê horrível, mas enfim… Michael podia, era mais respeitado inclusive em sua escolinha por ter um nome “do estrangeiro”. Que raios eu estou fazendo aqui?

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“Senhor, temos uma mensagem urgente para você. Cremos que é de suma importância que você saiba da existência dela e que tome conhecimento do que lá está contido assim que possível. Entre em contato com o número zero oitocentos, que seja. Gratos”. Recebi um texto assim de alguma destas empresas para as quais as nossas dívidas são repassadas. Provavelmente, pela forma como foi escrita, a mensagem não era para mim. Era para o James Bond.

- Senhor Bond, obrigado por atender à solicitação. Mr. William deixou esta mensagem codificada para que você. Por favor, tenha cuidado com os capangas de Mr. Sheringham.
- Minha filha, eu só devo ao banco, mas que diabos!

Os sistemas de cobrança estão cada vez mais sofisticados. Menos mal que os modos de gastar estejam indo pelo mesmo caminho.

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Desde que me tornei um repórter – voluntarioso repórter – não tenho mais contato com textos que não os do meu trabalho. Aliás, desde que me tornei um repórter não tenho mais contato com ninguém e com nada. Embora more em uma redação, não tenho do que reclamar. Meu texto está mais conciso, mais direto, mais objetivo, mais… Segue o bloco.

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Fico cada vez mais espantado com a capacidade que as pessoas têm de serem totalmente incapazes e incapacitadas, principalmente. Enquanto alguns discursam sobre cultura global – talvez com duplo sentido, talvez, e mais duas pedrinhas de gelo, mas sem limão – e a importância da Índia para o nosso glorioso país, outros pregam a valorização da nacionalização quase-que-absurdista do modo de pensar semi-culturalmente falando, tudo em relação, claro, a seja lá que diabos isso queira dizer.

Enquanto alguns teorizam até encher o saco – próprio e os dos outros -, outros se esvaziam de forma igualmente sacal.

- Você perdeu a sua identidade.
- Tem problema não, faço um boletim de ocorrência e não preciso pagar pela segunda via.
Ou:
- Eu até discutiria isso, mas estou vendo a novela.
Ou pior!
- A identidade nacional… – e por aí vai.

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Chega-se a um ponto em que a incredulidade total equivale a acreditar em qualquer coisa. Nada mais espanta – exceto pelas pessoas inúteis, pelas que se acham úteis e por outras que adoram utilizar travessões, ora porque necessitam, ora por questão de estilo.

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Não sei amarrar esse texto. Mal saberíamos, aliás, como mal sabemos amarrar os nossos próprios All Star.

Juventude anos oitenta, “mano” – com aspas, para casar com os travessões.

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Meta(:)literatura – O escritor de auto-ajuda

Normalmente o escritor de livros de auto-ajuda faz daquilo que escreve um objeto de fuga, um lugar onde pode se esconder levando apenas um videogame e a sua coleção de gibis do Batman. O problema de todo escritor de livros de auto-ajuda é achar que o problema de todo escritor de livros de auto-ajuda é também o problema de quem lê o que escreve o escritor de livros de auto-ajuda, uma vez que seu sucesso deve-se a, principalmente, dizer em quatro, cinco linhas o que poderia ter sido dito em quatro, cinco palavras. São meticulosos, fazem de tudo para enrolar o leitor e fazê-los acreditar que estão entendendo o que lêem, mesmo que nem quem escreve sabe o que diz.

O escritor de livros de auto-ajuda é um frustrado. Primeiramente pela característica daquilo que escreve, se é que assim pode se dizer. A auto-ajuda não serve para ajudar a ninguém a não ser você mesmo. Então por que diabos alguém escreve em nome de seja-lá-quem-for a fim de “ajudar” o leitor e denomina isso auto-ajuda? Fosse algo mais sugestivo, como “leia, extraia o que puder e bola pra frente”. Livros de auto-ajuda são o que fazem de alguém um best-seller, um escritor bola cheia. Escritor entre aspas, claro.

Certa vez alguém perguntou a um desses que publicam estas verdadeiras asneiras, o que achava da morte. Disse ele:

- A morte é o final de um caminho tortuoso, é o eldorado da vida, o que todos buscamos sem saber. Um sábio indiano disse certa vez que o elefante é quem tenta driblar a morte andando vagarosamente pelas terras, mas sem saber que mesmo devagar, a morte chega. O que significa que…

Definitivamente, não. Quando algum sábio – seja indiano, etíope ou soteropolitano – é citado numa passagem, sinal de que é um discurso vazio. Tão certo quanto saber que um ônibus cuja linha possui a numeração seguida de uma letra é a tradução de uma longa, longa viagem. Provavelmente no calor, o que não vem ao caso. A questão é que criou-se um mito – e, logo em seguida, um grande mercado – dos livros de auto-ajuda, algo insuportável. A auto-ajuda é literal e financeira, que o digam os autores destas peças raras. E eu, como um dos que fala contra o movimento, mas com as características de um verdadeiro ser humano, me arrisco a dizer que, caso a coisa continue feia por mais tempo, lançarei um também. Já virou festa, mesmo, como disse um sábio húngaro-polonês que…

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Mais um

É definitivo. Não há chances de volta. De agora em diante, largo a vida de escritor para viver alheio à sociedade e aos problemas mundanos. Tudo seria mais feliz se Adão – ou Eva – não tivesse mordiscado uma maçã – ou um figo – e dado origem ao que existe hoje. Certamente ainda seríamos abençoados – ou não – com a imortalidade, o Paraíso e escaparíamos ilesos às observações e frases entre travessões.

Escrever para leitores assíduos é uma tarefa das mais difíceis. Escrever para quase ninguém é pior ainda. Por isso decidi pela discrição completa, pelo quase anonimato, longe dos holofotes da literatura moderna, onde quaisquer oito ou dez palavras fazem de você um escritor renomado, de fama internacional e que é convidado a encontros literários (?), justamente para dar palestras e ensinar a todos o que todos, presumivelmente, já sabem: escrever. Mas, de preferência, sem frases do tamanho de um parágrafo, como foi a última.

 

É por essas e outras que resolvi largar as canetas e os papéis de lado. Café. Foi-se o tempo em que madrugadas eram utilizadas, invariavelmente, para escrever, entre um café e outro. Café. Não me sinto mais capaz de parir intelectualmente peças que toquem as pessoas a ponto de demovê-las da idéia de que são apenas engrenagens da grande máquina. Nós somos a máquina, seja lá o que isso significa. Ainda não perdi a mania que todos que escrevem possuem, a de dizer coisas sem sentido e que fazem o maior sentido do mundo.

 

                       Eu, por exemplo

                                                    Dono de mim

                                                                     Queria saber

                                                                                    Escrever assim

 

Mas não sei. E, plasticamente, não fica bonito. No máximo, o leitor tende a mover seu pescoço mais à direita a fim de ler. São frases que podem ocasionar uma epifania, mas mais provavelmente uma lesão muscular.

 

Estou muito desgostoso com o que se escreve hoje em dia. Não se escreve nada. Veja isto, por exemplo: que lição é possível tirar de tudo que eu escrevi até aqui? Quase nada. Eu sou a prova de que letrar todo e qualquer elemento deste mundo vil é perigoso.

 

- Cuidado, levantem as mãos, ele tem uma BIC e um pedaço de caderno.

 

Muito piores são esses escritorezinhos que ficam fazendo chacota do que vêem por aí. A incapacidade é tamanha que a criação fica sempre dependente do outro. É, talvez, mal da faculdade de jornalismo. Papai estava certo quando me mandou ser engenheiro. Disse a ele que a minha engenharia era a das palavras e olha onde parei?

Outro café.

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A novela

O primeiro casal se encontra por acaso. Por acaso ainda não são um casal. Tornam-se um casal conforme o tempo passa. Seus pais não se gostam desde os tempos de colégio. Sim, estudaram juntos e eram rivais. A mãe dela era namorada do pai dele, a mãe dele era namorada do pai dela. O tio, irmão do pai dela, era churrasqueiro de primeira, mas isso não é importante agora. Casaram-se na Igreja, no mês de maio. Todos foram convidados. O casamento acabará dentro em breve. Se não acabar, sofrerá abalos fortíssimos por causa de infidelidade. Dele ou dela? Bem, isso é tão importante quanto o tio churrasqueiro.

O segundo casal vive em crise. Ela é uma mulher angelical, ele é um patife, um sem-vergonha – isto nas palavras dela. Fica evidente desde o início que ela morre de amores pelo marido. Leva seu café na cama, passa a sua roupa, faz as compras, tudo do bom e do melhor. Mas ele só quer saber da outra.

O terceiro casal só existe para colocar lenha no fogo alheio. Ou fogo na lenha, já que são muito liberais. Quase não se falam, dificilmente dormem em casa, mas são eternamente apaixonados. Um pelo outro, claro. Sua filosofia de vida é a mais coesa de toda a história. A propósito, são casados na vida real.

O quarto casal é gay. O autor justifica a sua presença, em tom de brincadeira, dizendo que é culpa do sistema de cotas. E ninguém liga muito para o que acontece com elas, ou eles, enfim.
-Casal gay? Eles é que se… – dizem os atores mais novos, em tom de brincadeira. Mal chegaram e já aprenderam que o tom de brincadeira está presente em todos os lugares onde filmam as cenas. Já os vanguardistas escondem a boca com a mão, de leve, e soltam risadinhas.

O quinto casal é o que se diz “classe média baixa”. Moram em Quintino Bocaiúva – o cenográfico, não o verdadeiro – e vivem num cortiço com seus trinta filhos. São conhecidos como família-elenco-de-apoio.

O casamento é o ponto inicial da história. Todos estão presentes. Exceto o tio churrasqueiro, que ficou fazendo o churrasco. Ele só está ali para isso. O pai da noiva canta a mãe do noivo. O pai do noivo está bêbado antes mesmo de a festa começar. Há uma briga generalizada. O diretor está entretido com o casal gay, os três fofocam sobre o elenco de apoio. A briga deixa de ser encenada e passa a ser de verdade. O noivo é rancoroso e guarda até hoje a vingança. O marido do segundo casal era seu irmão na novela das seis há doze anos atrás. Eram crianças sadias, mas lá também houve uma briga, e ela também se tornou de verdade. O noivo, naquela ocasião, havia sido atingido covardemente pelo outro. Aproveitou a briga no casamento para dar o troco. O diretor não percebe que o chofer – um dos trinta e que faz papel de chofer – se aproxima e ouve tudo o que dizem, e continua a fofocar com os gays. O autor precisa intervir e grita:
-Corta!

A equipe de jornalismo aproveita o programa sensacionalista do meio-dia e entra de sola na história. Corta uma matéria em que só se vê a cor vermelha na tela.
-Imagem exclusiva, imagem exclusiva!
O apresentador fica indignado e vai fazer a cobertura da briga, ao vivo. Não admite que seu programa seja invadido por outro. O que não sabe é que aquilo também faz parte do roteiro. Ele entra na briga e soca covardemente o homem do segundo casal.
-Seu sem vergonha! Seu patife! – e cobra que ele melhore o tratamento dado a sua mulher. A mulher do apresentador não entende o texto e fica indignada também.
-Seu sem vergonha! Seu patife! – ela diz para o marido, que fica atônito.

O terceiro casal observa tudo calado. Vez que outra riem e se beijam calorosamente. O chofer volta à roda do diretor – sem duplo sentido – trazendo dois seguranças, outro motorista e cinco figurantes da praça pública da cidade cenográfica. A briga se alastra. O diretor grita apavorado, mas ninguém consegue entender o que está sendo falado. O autor se perde no roteiro, o dono da emissora pede para que cancelem a festa, o casal de noivos foge de helicóptero, há uma reviravolta no segundo casal – ele agora está de quatro pela mulher -, o terceiro casal já pode chegar aos finalmentes, pois provavelmente o horário já permite, o casal gay assiste a tudo com os olhos arregalados. O autor rasga tudo e grita:
-Corta! Corta!
E a novela finalmente acaba.

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Ensaio – (desvario XIX)

Sempre quis chamar um texto meu de ensaio. É charmoso dizer ‘o ensaísta’, mesmo que uma coisa não tenha a ver com a outra – que por sua vez, não tem a ver com nada. Também sempre tive vontade de colocar algarismos romanos ao nomear meus textos, mas não sei de onde vem tanta inspiração – absurda, infeliz e sem sentido. Antes que me julguem os entendedores, a plasticidade do título é comovente, mas este ensaio não passa de um desvario, como o próprio nome já diz. E segue o bloco.

 

Primeiro ato – (O contrato).

Em cena, Julieta e Romeu, em seu quarto;

- Julieta, amada minha…

- O que você quer, ó, Romeu?

- Como assim o que quero?

- Não me venha com balelas, você sabe o que eu espero…

- E o que é que você espera? Eu só preciso…

- De uma desculpa, não, Romeu?

- Mas que culpa tenho eu se o trabalho é que me chama?

- O trabalho? Tudo bem… Depois não reclama.

 

Segundo ato – (O falso retrato).

Romeu encontra seus amigos;

- Ó, Romeu, que fazes aqui?

- Pois dobrei minha mulher.

- Por que não diz ‘Julieta’?

- Tenho medo do que venha na rima seguinte.

- Dezenove não são vinte.

- Como?

- Como quiser. Não quer me ouvir rimar a Julieta, quer?

- Posso apostar que não.

- Mas e agora, o que há?

- Estamos pelas tabelas, mas há ali donzelas a nos observar.

- Quem irá?

- Eu vou, eu vou. E não precisa me esperar.

 

Terceiro ato – (O desacato).

Romeu e a donzela;

- E então, é mesmo uma donzela?

- Ah, meu filho, quem me dera…

- O que fazes nua a esta hora na rua, perdida?

- Se estou nua… Isto não lhe convém. Perdida, porém, estou há tempos.

- Posso lhe ajudar com algum vintém?

- Com algum, não. Com quinhentos

 

Ultimo ato – (O ultimato, para o leitor ficar contente).

O retorno triunfal;

- Ó, Romeu, já estamos pelas tantas. Por onde você andou?

- Julieta, tão amada, andava eu pela estrada e a gasolina se acabou.

- Mas por que não me avisou?

- E deveria eu avisá-la?

- Pois já preparo a mala e lhe coloco porta afora.

- E agora? Se há nos céus quem me socorra, por favor, apareça.

- Não peça ajuda divina, Romeu, e vá deitar, vá.

- Piedosa flor que me acolhe sempre…

- Mas antes, lave os pés seus antes que eu me esqueça.

 

Ato falho.

Este texto. Amém.

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Helena

Casei-me cedo, aos vinte e dois, com a filha de um casal de pobres esfarrapados que moravam à porta de minha casa. Nunca me importei muito com o que as pessoas fossem pensar disso, afinal, a moça não era como aquela outra que morava ao lado. Ela sim era uma mulher cuja reputação lhe escorrera por entre os dedos há tempos, desde que seu marido a pegou com outra na cama. A grega se chamava Helena, eu sempre fui apaixonado por mulheres brancas de cabelos negros, elas me apetecem mais que as outras, talvez por algum motivo óbvio que só eu não vejo, ou alguma herança de vidas passadas, para quem acredita realmente nisto. Logo nos mudamos para longe, mas Helena sempre visitava a casa dos pais. Morei sozinho durante toda a minha vida até Helena, nunca fui apegado a coisas e muito menos a alguém. Mas com ela era diferente. Querida Helena, eu dizia, Deixe-me abraçá-la por um momento, e isso era comum. Talvez porque com Helena eu me sentisse melhor, importante, talvez ela fosse a mãe que eu tive por alguns poucos momentos. Mas que era a minha mãe Helena, hoje e para todo o sempre, até que a morte nos separasse.

 

Acontece que a morte sempre chega em momentos inoportunos, justamente por nunca estarmos à espera da única certeza que temos desde o momento em que somos dados à luz. A vida é uma inversão de valores, a morte é a saída para tudo. Não raro, ela surge para que possamos nos colocar no lugar de onde nunca devíamos ter saído. O problema do homem é crer que pode lidar com o que não pode, e há quem ache, hoje em dia, que tem o poder de driblar a velhice, a morte. O tempo, como dito por todos os cantos, é o assassino mais cruel e frio de todos, ele mata aos poucos e você não sente. Eu vou acabar, um dia, e Helena também, mas espero, sinceramente, que eu vá embora antes dela. Não há lugar para cavalheirismo numa hora destas, mesmo que tudo aquilo que me foi imposto durante todo esse tempo fez com que eu me acostumasse a seguir certas regras, ditas por sabe-se lá quem, e que acabam intrínsecas ao homem durante a vida. A vida é uma merda, eu estive ladeado de gente pequena, gente mesquinha durante boa parte do que chamam vida. O absurdo não é pensar como elas pensavam e pensam, as que não se foram, mas sim pensar que elas existem. Não sei aonde cheguei, mas é uma pena ver que muitos, durante muito tempo, simplesmente estiveram, não foram. A diferença entre ser e estar é a mais difícil das diferenças, quase ninguém percebe.

 

Helena é a minha única dependência. Não consigo estar longe dela, muito menos conseguiria ser longe dela. Minha única fraqueza, talvez, eu que sou um velho desligado de qualquer religião, desapegado de qualquer valor. Meu único valor é a minha Helena, e sempre será. Até que a morte nos separe.

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Aperte o verde… Não, não, o vermelho não!

Eleitor, não perca seu tempo. Não, não é para virar a página, é para estudar em quem deve votar. Exerça a sua cidadania – sempre à base de verbos no modo imperativo.

 

Alguns candidatos curiosos foram listados para que a sua escolha seja consciente.

 

Jorginho da Feira – Estudou até a terceira série do fundamental – o que não foi suficiente para que ele conseguisse, por exemplo, a presidência (da Associação de Moradores). Homofóbico e tarado assumido, pretende ser eleito para dizer e fazer o que quiser impunemente. Promete aproveitar a sua experiência profissional para reduzir o numero de frutas. Sua política para mulheres visa à melhoria na prestação de serviços àquelas que gostam de verduras. Mas seu assessor já foi demitido trinta e duas vezes por outros candidatos e só aceitou trabalhar de graça se tivesse a liberdade para fazer trocadilhos de campanha.

 

Marcianita – A candidata da mulher. Apanhava do marido até entrar para uma religião qualquer. O começo foi difícil, pois, no banho sagrado proposto nos encontros, ficou na última fila de fiéis recebendo toda a carga negativa do lugar. Depois de sessões de terapia pagas por seu pai Astor, voltou com força total e hoje toma conta de um grupo chamado ONG, por falta de criatividade, que coleta moedas em ônibus. Do marido, nada se sabe.

 

Samuel Abib – Há quarenta e sete anos na câmara de vereadores, atua em causa própria, mas evita dizê-lo em público. Durante sua carreira política, construiu um patrimônio invejável – que conta com uma rede de supermercados – e hoje, além de tudo, gerencia estacionamentos e restaurantes em parques públicos. Uma pessoa íntegra que serve de exemplo para muitos; não tinha perspectivas e experiência alguma na política, mas conseguiu ser eleito mesmo assim, mostrando que você, cidadão comum, também pode.

 

Marques do Vermelhão – Participou de movimentos estudantis durante toda a sua vida. Tem quarenta e um anos e cursa filosofia há vinte na universidade estadual. Sua causa é simples: a causa dos estudantes sem causa. Desde o jardim de infância causava tumulto ao reclamar do alto preço do pastelzinho. Sua primeira greve – esta de fome – aconteceu na oitava série, quando não queria pagar dez cruzeiros por um prato-feito no restaurante do colégio. Figura presente a todas as passeatas pelo passe livre estudantil. Por acaso, sua família lhe dá todo o conforto e respaldo de que precisa, mas mesmo assim é engajado. Até, claro, o fim do ano letivo.

 

Marrubson – Sua origem, assim como a de seu nome, é uma incógnita. Professor de cálculo e violinista clássico, promete lutar por saúde, educação, moradia para todos, esporte, meio-ambiente, criatividade…

 

Etc.

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E se…

Alguém provavelmente já considerou a possibilidade. De certo também escreveu sobre. Duas ou mais vezes, a mesma pessoa. O problema é que não é tão fácil ser original nos dias de hoje, principalmente quando, por exemplo, considerados a China e o bilhão de chineses que lá nasceram, vivem e se reproduzem geometricamente – que significa “em escala geométrica”, a maneira com que o fazem é a mesma desde Adão e Eva -, fica mesmo difícil conceber algo novo. E já que é tão difícil escrever o novo – e mais ainda sem cacófatos -, resolvi que seria a hora de vender ou pelo menos empenhar a minha alma literária ao Diabo. Só para dar o pontapé inicial, aos poucos os textos voltariam a jorrar das pontas destes dedos. Faria o negócio só por causa da complicada missão que pretendo cumprir, depois daria um jeito de desfazer o trato, uma vez que faço parte da espécie humana – e com o fator agravante de ser brasileiro, ora!

 

Pois bem. Como achar a citada entidade ou seja lá o que for? Qualquer incluído digital conhece ferramentas de busca na internet. Mas não me foram suficientemente boas. Não acharam a fonte correta. Pensei em deixar um recado no Orkut, mas duvido que algum daqueles tantos usuários seja mesmo o tal. Provavelmente também buscam fazer negócio, não acredito que façam isso por diversão ou por achar bonito. E o desespero, evidentemente, dói mais do que saber que aquela menina estranha que, curiosamente, não tinha nome – era conhecida como “aquela menina estranha” – da sua escola e que insistia em dizer que era a sua namorada, sendo logicamente repreendida, hoje em dia é uma mulher de parar o trânsito. Isto é, sem ser guarda ou motorista.

 

Depois de muito penar, achei a figura. Não foi difícil, o difícil é entender como eu posso me contradizer em dez ou doze palavras. Batemos longo papo, ele disse:

- Você poderia ter esbarrado comigo no metrô, na faculdade, no elevador do prédio onde você vive. Eu poderia entrar na sua casa facilmente através da sua tevê, do seu aparelho de rádio.

- Inclusive na internet eu o procurei – eu disse.

E ele riu, dizendo:

- Não informatizei o serviço ainda, o processo está tramitando e as verbas, ainda assim, são curtas.

 

Como foi espantoso saber que o Diabo toma lições de mercado dia sim, dia não apesar de discordar da maioria dos analistas que afirmam a enorme possibilidade de uma nova quebra da economia mundial. Não entendia muito bem os termos técnicos que ele usava, mas sou jornalista, converso sobre qualquer coisa e, se não sei, invento.

 

Antes de propor o trato, disse também que tentei seduzi-lo de alguma forma. Em um primeiro momento, deixei aflorar à pele toda a minha crueldade, mas pensei que seria fácil demais para ele adquirir uma alma corroída, corrompida etc. Tentei, então, valorizá-la com atos de caridade extrema, mas também não daria certo. Ele não chega perto de gente assim. A surpresa de encontrá-lo por acaso foi saber que nenhum esforço seria suficiente ou insuficiente para a cena. Poderia ter acontecido em qualquer lugar, é a gratuidade da coisa. Quando comentei sobre os meus problemas e a minha intenção de fazer o acordo, ele novamente surpreendeu:

- Posso fazer um pedido antes?

- Pois não, faça.

- Você sabe o que é “amarrar” um texto?

- Sem idéias? Fechar a idéia é tão difícil quando gerá-la.

- Sim. Isto é o de menos, eu posso lhe proporcionar.

- Tudo bem. Mais alguma coisa?

- Já que você perguntou, sim. Há mais uma coisa.

- O que é?

- Estes diálogos em demasia.

- É bom evitar?

- Certamente. Ou nunca mais vai conseguir escrever nada.

 

Fez-se, assim, a luz.

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