Agosto 7, 2009

Esquizofrenia (não, esquizofrênico é o outro!)

Posto diretamente do WordPress, já que não tenho mais Word. Aliás, de uns tempos para cá, aprendi e desaprendi a fazer dezenas de coisas diferentes. Há muito não entro por aqui. Para se ter uma ideia, da última vez que publiquei algo o Michael Jackson ainda estava vivo – e, se bobear, ainda era negro. Michael Jordan ainda estava no Chicago Bulls. E o Michael – filho de uma vizinha – ainda comemorava seus três anos. Lembro-me como se fosse hoje, um bolo solado, um glacê horrível, mas enfim… Michael podia, era mais respeitado inclusive em sua escolinha por ter um nome “do estrangeiro”. Que raios eu estou fazendo aqui?

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“Senhor, temos uma mensagem urgente para você. Cremos que é de suma importância que você saiba da existência dela e que tome conhecimento do que lá está contido assim que possível. Entre em contato com o número zero oitocentos, que seja. Gratos”. Recebi um texto assim de alguma destas empresas para as quais as nossas dívidas são repassadas. Provavelmente, pela forma como foi escrita, a mensagem não era para mim. Era para o James Bond.

- Senhor Bond, obrigado por atender à solicitação. Mr. William deixou esta mensagem codificada para que você. Por favor, tenha cuidado com os capangas de Mr. Sheringham.
- Minha filha, eu só devo ao banco, mas que diabos!

Os sistemas de cobrança estão cada vez mais sofisticados. Menos mal que os modos de gastar estejam indo pelo mesmo caminho.

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Desde que me tornei um repórter – voluntarioso repórter – não tenho mais contato com textos que não os do meu trabalho. Aliás, desde que me tornei um repórter não tenho mais contato com ninguém e com nada. Embora more em uma redação, não tenho do que reclamar. Meu texto está mais conciso, mais direto, mais objetivo, mais… Segue o bloco.

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Fico cada vez mais espantado com a capacidade que as pessoas têm de serem totalmente incapazes e incapacitadas, principalmente. Enquanto alguns discursam sobre cultura global – talvez com duplo sentido, talvez, e mais duas pedrinhas de gelo, mas sem limão – e a importância da Índia para o nosso glorioso país, outros pregam a valorização da nacionalização quase-que-absurdista do modo de pensar semi-culturalmente falando, tudo em relação, claro, a seja lá que diabos isso queira dizer.

Enquanto alguns teorizam até encher o saco – próprio e os dos outros -, outros se esvaziam de forma igualmente sacal.

- Você perdeu a sua identidade.
- Tem problema não, faço um boletim de ocorrência e não preciso pagar pela segunda via.
Ou:
- Eu até discutiria isso, mas estou vendo a novela.
Ou pior!
- A identidade nacional… – e por aí vai.

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Chega-se a um ponto em que a incredulidade total equivale a acreditar em qualquer coisa. Nada mais espanta – exceto pelas pessoas inúteis, pelas que se acham úteis e por outras que adoram utilizar travessões, ora porque necessitam, ora por questão de estilo.

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Não sei amarrar esse texto. Mal saberíamos, aliás, como mal sabemos amarrar os nossos próprios All Star.

Juventude anos oitenta, “mano” – com aspas, para casar com os travessões.

Março 11, 2009

Meta(:)literatura – O escritor de auto-ajuda

Normalmente o escritor de livros de auto-ajuda faz daquilo que escreve um objeto de fuga, um lugar onde pode se esconder levando apenas um videogame e a sua coleção de gibis do Batman. O problema de todo escritor de livros de auto-ajuda é achar que o problema de todo escritor de livros de auto-ajuda é também o problema de quem lê o que escreve o escritor de livros de auto-ajuda, uma vez que seu sucesso deve-se a, principalmente, dizer em quatro, cinco linhas o que poderia ter sido dito em quatro, cinco palavras. São meticulosos, fazem de tudo para enrolar o leitor e fazê-los acreditar que estão entendendo o que lêem, mesmo que nem quem escreve sabe o que diz.

 

O escritor de livros de auto-ajuda é um frustrado. Primeiramente pela característica daquilo que escreve, se é que assim pode se dizer. A auto-ajuda não serve para ajudar a ninguém a não ser você mesmo. Então por que diabos alguém escreve em nome de seja-lá-quem-for a fim de “ajudar” o leitor e denomina isso auto-ajuda? Fosse algo mais sugestivo, como “leia, extraia o que puder e bola pra frente”. Livros de auto-ajuda são o que fazem de alguém um best-seller, um escritor bola cheia. Escritor entre aspas, claro.

 

Certa vez alguém perguntou a um desses que publicam estas verdadeiras asneiras, o que achava da morte. Disse ele:

 

- A morte é o final de um caminho tortuoso, é o eldorado da vida, o que todos buscamos sem saber. Um sábio indiano disse certa vez que o elefante é quem tenta driblar a morte andando vagarosamente pelas terras, mas sem saber que mesmo devagar, a morte chega. O que significa que…

 

Definitivamente, não. Quando algum sábio – seja indiano, etíope ou soteropolitano – é citado numa passagem, sinal de que é um discurso vazio. Tão certo quanto saber que um ônibus cuja linha possui a numeração seguida de uma letra é a tradução de uma longa, longa viagem. Provavelmente no calor, o que não vem ao caso. A questão é que criou-se um mito – e, logo em seguida, um grande mercado – dos livros de auto-ajuda, algo insuportável. A auto-ajuda é literal e financeira, que o digam os autores destas peças raras. E eu, como um dos que fala contra o movimento, mas com as características de um verdadeiro ser humano, me arrisco a dizer que, caso a coisa continue feia por mais tempo, lançarei um também. Já virou festa, mesmo, como disse um sábio húngaro-polonês que…

Março 9, 2009

Mais um

É definitivo. Não há chances de volta. De agora em diante, largo a vida de escritor para viver alheio à sociedade e aos problemas mundanos. Tudo seria mais feliz se Adão – ou Eva – não tivesse mordiscado uma maçã – ou um figo – e dado origem ao que existe hoje. Certamente ainda seríamos abençoados – ou não – com a imortalidade, o Paraíso e escaparíamos ilesos às observações e frases entre travessões.

Escrever para leitores assíduos é uma tarefa das mais difíceis. Escrever para quase ninguém é pior ainda. Por isso decidi pela discrição completa, pelo quase anonimato, longe dos holofotes da literatura moderna, onde quaisquer oito ou dez palavras fazem de você um escritor renomado, de fama internacional e que é convidado a encontros literários (?), justamente para dar palestras e ensinar a todos o que todos, presumivelmente, já sabem: escrever. Mas, de preferência, sem frases do tamanho de um parágrafo, como foi a última.

 

É por essas e outras que resolvi largar as canetas e os papéis de lado. Café. Foi-se o tempo em que madrugadas eram utilizadas, invariavelmente, para escrever, entre um café e outro. Café. Não me sinto mais capaz de parir intelectualmente peças que toquem as pessoas a ponto de demovê-las da idéia de que são apenas engrenagens da grande máquina. Nós somos a máquina, seja lá o que isso significa. Ainda não perdi a mania que todos que escrevem possuem, a de dizer coisas sem sentido e que fazem o maior sentido do mundo.

 

                       Eu, por exemplo

                                                    Dono de mim

                                                                     Queria saber

                                                                                    Escrever assim

 

Mas não sei. E, plasticamente, não fica bonito. No máximo, o leitor tende a mover seu pescoço mais à direita a fim de ler. São frases que podem ocasionar uma epifania, mas mais provavelmente uma lesão muscular.

 

Estou muito desgostoso com o que se escreve hoje em dia. Não se escreve nada. Veja isto, por exemplo: que lição é possível tirar de tudo que eu escrevi até aqui? Quase nada. Eu sou a prova de que letrar todo e qualquer elemento deste mundo vil é perigoso.

 

- Cuidado, levantem as mãos, ele tem uma BIC e um pedaço de caderno.

 

Muito piores são esses escritorezinhos que ficam fazendo chacota do que vêem por aí. A incapacidade é tamanha que a criação fica sempre dependente do outro. É, talvez, mal da faculdade de jornalismo. Papai estava certo quando me mandou ser engenheiro. Disse a ele que a minha engenharia era a das palavras e olha onde parei?

Outro café.

Março 1, 2009

Artes plásticas

Definitivamente, conceituar artes plásticas está além do alcance de pobres mortais como eu. E não é questão de não apreciar. Acho muito bonitas certas obras de Michelangelo, Picasso, Van Gogh, Goya, Velázquez, Da Vinci etc. O problema é a análise conceitual destas obras que são feitas por bons entendedores – ou não -, o que às vezes me deixa nervoso. Justamente por achar que me falam num idioma desconhecido.

Não há sensação pior que a de ouvir histórias e referências de um estudioso das artes calado, provavelmente sem saber do que ele está falando. É como estar preso e amordaçado ouvindo grandes aulas de filosofia, onde tudo é um e a água em que mergulho agora não é a mesma em que mergulharei mais tarde. E… Enfim.

Há também a possibilidade de análises equivocadas. Claro, todo e qualquer ser humano é passível de errar. Certa vez um crítico disse, sobre um quadro qualquer:
- Trata-se da guerra dentro de si, exteriorizada através do remorso contundente de pincéis atômicos azuis e um quê de tom pastel. Os egípcios diriam que é algo para eternizar, os gregos adotariam traços detraqués, trazendo à tona o amalucado rabisco pós-moderno. Não acho que o artista tenha querido expor desta forma a questão da inovação tecnológica do século XXI, muito embora esteja claro na obra – aqui, deste lado, sim – que o mundo novo também está muito bem esclarecido nos traço-e-pontos intuitivos de que lançou mão o autor da obra. Magnífico!

O artista, então, resumiu melhor o que pintou no quadro:
- São crianças vendendo laranja em Quixeramobim.

Com todo respeito aos estudiosos das artes em geral, penso que tudo deveria ser mais simplificado. A ponto de aumentar o alcance à qualidade do que se produziu e do que se produz. Os gênios históricos – inclusive já citados por aqui -, nada dos efêmeros dos dias de hoje. Gente que diz artista tem o nariz empinado e um sotaque extremamente irritante com ares de superior. Quem nunca pensou ‘esta merda até eu faço?’ O problema é que os ‘novos artistas’ são superestimados por uma critica, na maioria das vezes, imbecil. É assim também com a literatura, infelizmente. Porém, o outro lado da moeda – graças aos céus – torna estes semideuses da nova arte tão passageiros quanto a qualidade do que produzem.

Fevereiro 22, 2009

A festa do Venancinho

O pai brigou até o fim para que não houvesse nada além de uma reunião entre três ou quatro amigos do filho no apartamento. Apesar de grande, era só um apartamento. A mãe fez questão de divulgar no jardim-escola onde o garoto estudava – ou brincava, tanto faz, o importante é que a mensalidade sempre era depositada todo dia cinco – o que chamava de ‘acontecimento do ano’, em meio a bochichos das outras mães. Eis que o dia da festa chega. Alguém bate à porta.
- É aqui que tá acontecendo a festa do Joquinha?
- Não, aqui é a festa do Venancinho.
- Mas o porteiro me disse que era aqui.
- Não, senhor, aqui não é a festa do Joquinha.
- Mas o Joquinha tá aí?
- Meu senhor…

O pai interrompeu o diálogo inesperado com o outro, que procurava o Joquinha. Ficou intrigado, mas teve que separar dois garotos que brincavam de ’brigar’, coisa de garoto, o que por pouco não quebrou dois vasos de porcelana vidrada de cor vermelho-cobre da dinastia ming. Herança de tia rica é herança de tia rica.
- Só quero saber do Joquinha.
- O senhor está no apartamento errado.
- Não é Ipanema, este bairro?
- Sim, mas…
- Barão da Torre? Quatrocentos e vinte?
- Sim, o que acontece é que…
- Pois então. Me disseram que a festa do Joquinha era aqui, e o porteiro confirmou.

O homem perdera o controle.
- Cadê minha mulher? Venancinho, viu sua mãe por aí? Venancinho, solta a orelha do amigo. Ô, garoto, quem é você? Não importa, para de rabiscar minha parede. Venancinho, quem é aquele ali? E essa menina gordinha chorando? Menina, isso na sua mão é bolo? Onde você encontrou isso? Venancinho, cadê a sua mãe? Era pra ser um encontro, um encontro!

O outro ainda estava parado em frente à porta do apartamento.
- Aqui é o presente do Joquinha.
- Não tem nenhum Joquinha aqui, homem. Se bem que eu não faço idéia de quem está ou não aqui.
- Aqui é a festa dele, tá no convite.
- Aqui é a festa do Venancinho.
- O Joquinha não tá mesmo aí?
De tanto insistir, o homem, enfim, convenceu o dono da casa a procurar o garoto.
- Com licença. Joquinha?! Joquinha?!
Ninguém apareceu.
- Venancinho, você viu o Joquinha por aí?
- Não sei quem é Joquinha, papai.
- Mas…
- Papai, posso pegar meus brinquedos no armário.
- Não, Joquinha, não!
- Papai… Venancinho, papai.
Nisso, eis que surge a menina gordinha. Soluçava, não mais chorava, mas tinha o rosto todo sujo de chocolate e cobertura de bolo, apesar de aparentar ter mais idade que os demais – e de fato ser mais velha, coisa de três, quatro anos.
- O Joquinha já foi.
- Como assim “já foi?”
- Saiu há dez minutos,foi embora com o primo.
Voltou, então, à porta. E lá estava o homem, ainda, mas já impaciente.
- O Joquinha já foi.
- Como “já foi?”
- Foi o que eu perguntei à gordinha.
- Como?
- Enfim. O Joquinha foi embora com o primo dele.
- Eu sou o primo do Joquinha! Tá no convite! – E realmente estava escrito à caneta BIC. “Primo do Joquinha”.
- Espera, esse convite é do Super-Homem.
- Sim.
- Olha ali. – e apontou para um enorme morcego.
- Aqui não é a festa do Joquinha. Perdão.
E o homem foi embora. Então o pai chamou o Venancinho.
- Meu filho, você viu sua mãe? Não, antes disso, me diz uma coisa. Aqui na sua festa tem algum amiguinho ou alguma amiguinha que você não conhece?
- Aquela menina, papai – e apontou para a gordinha.

Naturalmente, o homem foi atrás da mequetrefe. E ainda disse ao homem que o Joquinha tinha ido embora, mas o Joquinha nunca veio aqui. Mequetrefe!
- Menina, quem é você? Como você conheceu o Venancinho?
- Mas, tio, aqui não é a festa do Joquinha?

E assim seguiu o bloco. Mas era pra ser apenas um encontro.

Fevereiro 8, 2009

Certidão de Casamento

Livro B-3, folha cento e noventa e sete, número trinta e cinco, CERTIFICO que, no livro competente de CASAMENTOS deste cartório, consta o assento do matrimônio de NATANAEL ALEX CONTRERAS e CINTIA STEINHEIGER, que adotou o nome de CINTIA STEINHEIGER CONTRERAS DA SILVA. “CONTRERAS” por parte do marido, “DA SILVA” por achar aquilo que chamou de “toque de brasilidade no sobrenome” uma coisa “bonita”, contraído no dia seis de setembro de mil novecentos e noventa e três.

 

ELE, nascido no CHILE (deportado da Venezuela, da Colômbia e em seguida da Espanha, encontrou no Brasil um refúgio), de PROFISSÃO NÃO IDENTIFICADA (pois é cidadão irregular no país), com TRINTA E NOVE ANOS de IDADE. Filho de EFE CONTRERAS e dona MARIA JOSE DE LAS NIEVES BOLANOS ARAUJO OBREGÓN Y OBREGÓN CONTRERAS.

 

ELA, nascida no Brasil, vinda de família nobre do interior catarinense, cirurgiã ortopedista, com 22 anos de idade. Filha de GERD SCHOPPENSETZENHAUSENHOFF e ARIANE STEINHEIGER. Para a facilitação do trabalho do cartório, escolheu deixar de lado o complicado sobrenome do pai.

 

REGIME DE BENS: há um problema com relação a isso. O senhor Gerd Schoppensetzenhausenhoff discorda da comunhão universal de bens, uma vez que não costuma comungar, freqüentar igrejas de religiões que não a sua e entender as coisas pela metade, achando que se trata daquilo que ele pensa que é mas, na verdade, não é. Já o senhor Contreras concorda que, por se tratar de uma família abastada, seu nome deveria desde já ser incluído no testamento como único recebedor da herança, uma vez que – seguem suas próprias palavras – “casar-se com uma linda, rica e jovem moça, e rica, não é nada além de um sacrifício em nome do amor”. O senhor Schoppensetzenhausenhoff aceita dizendo que deseja comungar – no mau sentido – com a senhora Obregon y Obregon Contreras, que fica uma fera. É uma viúva de respeito. Mas que diabos!, eu não deveria estar escrevendo isso no documento. COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS, e seja o que deus quiser.

 

OBSERVAÇÕES: o cartório deixou ciente o pai da jovem de que não se responsabiliza por danos causados à integridade moral, à integridade física – principalmente a física – e à integridade psicológica de CINTIA STEINHEIGER CONTRERAS DA SILVA, ficando claro, desta forma, que nós recebemos APENAS para documentar e não para servir de apoio técnico, psiquiátrico, amoroso ou seja-lá-o-que-for. Ele concordou, parecendo prestar mais atenção ao modo como se comportava a senhora OBREGON Y OBREGON CONTRERAS, viúva de respeito, do que no funcionário do cartório, que lhe passava as ditas orientações e não-responsabilizações.

 

O referido é verdade e dou fé.

Novembro 17, 2008

A novela

O primeiro casal se encontra por acaso. Por acaso ainda não são um casal. Tornam-se um casal conforme o tempo passa. Seus pais não se gostam desde os tempos de colégio. Sim, estudaram juntos e eram rivais. A mãe dela era namorada do pai dele, a mãe dele era namorada do pai dela. O tio, irmão do pai dela, era churrasqueiro de primeira, mas isso não é importante agora. Casaram-se na Igreja, no mês de maio. Todos foram convidados. O casamento acabará dentro em breve. Se não acabar, sofrerá abalos fortíssimos por causa de infidelidade. Dele ou dela? Bem, isso é tão importante quanto o tio churrasqueiro.

O segundo casal vive em crise. Ela é uma mulher angelical, ele é um patife, um sem-vergonha – isto nas palavras dela. Fica evidente desde o início que ela morre de amores pelo marido. Leva seu café na cama, passa a sua roupa, faz as compras, tudo do bom e do melhor. Mas ele só quer saber da outra.

O terceiro casal só existe para colocar lenha no fogo alheio. Ou fogo na lenha, já que são muito liberais. Quase não se falam, dificilmente dormem em casa, mas são eternamente apaixonados. Um pelo outro, claro. Sua filosofia de vida é a mais coesa de toda a história. A propósito, são casados na vida real.

O quarto casal é gay. O autor justifica a sua presença, em tom de brincadeira, dizendo que é culpa do sistema de cotas. E ninguém liga muito para o que acontece com elas, ou eles, enfim.
-Casal gay? Eles é que se… – dizem os atores mais novos, em tom de brincadeira. Mal chegaram e já aprenderam que o tom de brincadeira está presente em todos os lugares onde filmam as cenas. Já os vanguardistas escondem a boca com a mão, de leve, e soltam risadinhas.

O quinto casal é o que se diz “classe média baixa”. Moram em Quintino Bocaiúva – o cenográfico, não o verdadeiro – e vivem num cortiço com seus trinta filhos. São conhecidos como família-elenco-de-apoio.

O casamento é o ponto inicial da história. Todos estão presentes. Exceto o tio churrasqueiro, que ficou fazendo o churrasco. Ele só está ali para isso. O pai da noiva canta a mãe do noivo. O pai do noivo está bêbado antes mesmo de a festa começar. Há uma briga generalizada. O diretor está entretido com o casal gay, os três fofocam sobre o elenco de apoio. A briga deixa de ser encenada e passa a ser de verdade. O noivo é rancoroso e guarda até hoje a vingança. O marido do segundo casal era seu irmão na novela das seis há doze anos atrás. Eram crianças sadias, mas lá também houve uma briga, e ela também se tornou de verdade. O noivo, naquela ocasião, havia sido atingido covardemente pelo outro. Aproveitou a briga no casamento para dar o troco. O diretor não percebe que o chofer – um dos trinta e que faz papel de chofer – se aproxima e ouve tudo o que dizem, e continua a fofocar com os gays. O autor precisa intervir e grita:
-Corta!

A equipe de jornalismo aproveita o programa sensacionalista do meio-dia e entra de sola na história. Corta uma matéria em que só se vê a cor vermelha na tela.
-Imagem exclusiva, imagem exclusiva!
O apresentador fica indignado e vai fazer a cobertura da briga, ao vivo. Não admite que seu programa seja invadido por outro. O que não sabe é que aquilo também faz parte do roteiro. Ele entra na briga e soca covardemente o homem do segundo casal.
-Seu sem vergonha! Seu patife! – e cobra que ele melhore o tratamento dado a sua mulher. A mulher do apresentador não entende o texto e fica indignada também.
-Seu sem vergonha! Seu patife! – ela diz para o marido, que fica atônito.

O terceiro casal observa tudo calado. Vez que outra riem e se beijam calorosamente. O chofer volta à roda do diretor – sem duplo sentido – trazendo dois seguranças, outro motorista e cinco figurantes da praça pública da cidade cenográfica. A briga se alastra. O diretor grita apavorado, mas ninguém consegue entender o que está sendo falado. O autor se perde no roteiro, o dono da emissora pede para que cancelem a festa, o casal de noivos foge de helicóptero, há uma reviravolta no segundo casal – ele agora está de quatro pela mulher -, o terceiro casal já pode chegar aos finalmentes, pois provavelmente o horário já permite, o casal gay assiste a tudo com os olhos arregalados. O autor rasga tudo e grita:
-Corta! Corta!
E a novela finalmente acaba.

Outubro 16, 2008

Ensaio – (desvario XIX)

Sempre quis chamar um texto meu de ensaio. É charmoso dizer ‘o ensaísta’, mesmo que uma coisa não tenha a ver com a outra – que por sua vez, não tem a ver com nada. Também sempre tive vontade de colocar algarismos romanos ao nomear meus textos, mas não sei de onde vem tanta inspiração – absurda, infeliz e sem sentido. Antes que me julguem os entendedores, a plasticidade do título é comovente, mas este ensaio não passa de um desvario, como o próprio nome já diz. E segue o bloco.

 

Primeiro ato – (O contrato).

Em cena, Julieta e Romeu, em seu quarto;

- Julieta, amada minha…

- O que você quer, ó, Romeu?

- Como assim o que quero?

- Não me venha com balelas, você sabe o que eu espero…

- E o que é que você espera? Eu só preciso…

- De uma desculpa, não, Romeu?

- Mas que culpa tenho eu se o trabalho é que me chama?

- O trabalho? Tudo bem… Depois não reclama.

 

Segundo ato – (O falso retrato).

Romeu encontra seus amigos;

- Ó, Romeu, que fazes aqui?

- Pois dobrei minha mulher.

- Por que não diz ‘Julieta’?

- Tenho medo do que venha na rima seguinte.

- Dezenove não são vinte.

- Como?

- Como quiser. Não quer me ouvir rimar a Julieta, quer?

- Posso apostar que não.

- Mas e agora, o que há?

- Estamos pelas tabelas, mas há ali donzelas a nos observar.

- Quem irá?

- Eu vou, eu vou. E não precisa me esperar.

 

Terceiro ato – (O desacato).

Romeu e a donzela;

- E então, é mesmo uma donzela?

- Ah, meu filho, quem me dera…

- O que fazes nua a esta hora na rua, perdida?

- Se estou nua… Isto não lhe convém. Perdida, porém, estou há tempos.

- Posso lhe ajudar com algum vintém?

- Com algum, não. Com quinhentos

 

Ultimo ato – (O ultimato, para o leitor ficar contente).

O retorno triunfal;

- Ó, Romeu, já estamos pelas tantas. Por onde você andou?

- Julieta, tão amada, andava eu pela estrada e a gasolina se acabou.

- Mas por que não me avisou?

- E deveria eu avisá-la?

- Pois já preparo a mala e lhe coloco porta afora.

- E agora? Se há nos céus quem me socorra, por favor, apareça.

- Não peça ajuda divina, Romeu, e vá deitar, vá.

- Piedosa flor que me acolhe sempre…

- Mas antes, lave os pés seus antes que eu me esqueça.

 

Ato falho.

Este texto. Amém.

Outubro 9, 2008

Helena

Casei-me cedo, aos vinte e dois, com a filha de um casal de pobres esfarrapados que moravam à porta de minha casa. Nunca me importei muito com o que as pessoas fossem pensar disso, afinal, a moça não era como aquela outra que morava ao lado. Ela sim era uma mulher cuja reputação lhe escorrera por entre os dedos há tempos, desde que seu marido a pegou com outra na cama. A grega se chamava Helena, eu sempre fui apaixonado por mulheres brancas de cabelos negros, elas me apetecem mais que as outras, talvez por algum motivo óbvio que só eu não vejo, ou alguma herança de vidas passadas, para quem acredita realmente nisto. Logo nos mudamos para longe, mas Helena sempre visitava a casa dos pais. Morei sozinho durante toda a minha vida até Helena, nunca fui apegado a coisas e muito menos a alguém. Mas com ela era diferente. Querida Helena, eu dizia, Deixe-me abraçá-la por um momento, e isso era comum. Talvez porque com Helena eu me sentisse melhor, importante, talvez ela fosse a mãe que eu tive por alguns poucos momentos. Mas que era a minha mãe Helena, hoje e para todo o sempre, até que a morte nos separasse.

 

Acontece que a morte sempre chega em momentos inoportunos, justamente por nunca estarmos à espera da única certeza que temos desde o momento em que somos dados à luz. A vida é uma inversão de valores, a morte é a saída para tudo. Não raro, ela surge para que possamos nos colocar no lugar de onde nunca devíamos ter saído. O problema do homem é crer que pode lidar com o que não pode, e há quem ache, hoje em dia, que tem o poder de driblar a velhice, a morte. O tempo, como dito por todos os cantos, é o assassino mais cruel e frio de todos, ele mata aos poucos e você não sente. Eu vou acabar, um dia, e Helena também, mas espero, sinceramente, que eu vá embora antes dela. Não há lugar para cavalheirismo numa hora destas, mesmo que tudo aquilo que me foi imposto durante todo esse tempo fez com que eu me acostumasse a seguir certas regras, ditas por sabe-se lá quem, e que acabam intrínsecas ao homem durante a vida. A vida é uma merda, eu estive ladeado de gente pequena, gente mesquinha durante boa parte do que chamam vida. O absurdo não é pensar como elas pensavam e pensam, as que não se foram, mas sim pensar que elas existem. Não sei aonde cheguei, mas é uma pena ver que muitos, durante muito tempo, simplesmente estiveram, não foram. A diferença entre ser e estar é a mais difícil das diferenças, quase ninguém percebe.

 

Helena é a minha única dependência. Não consigo estar longe dela, muito menos conseguiria ser longe dela. Minha única fraqueza, talvez, eu que sou um velho desligado de qualquer religião, desapegado de qualquer valor. Meu único valor é a minha Helena, e sempre será. Até que a morte nos separe.

Setembro 24, 2008

Aperte o verde… Não, não, o vermelho não!

Eleitor, não perca seu tempo. Não, não é para virar a página, é para estudar em quem deve votar. Exerça a sua cidadania – sempre à base de verbos no modo imperativo.

 

Alguns candidatos curiosos foram listados para que a sua escolha seja consciente.

 

Jorginho da Feira – Estudou até a terceira série do fundamental – o que não foi suficiente para que ele conseguisse, por exemplo, a presidência (da Associação de Moradores). Homofóbico e tarado assumido, pretende ser eleito para dizer e fazer o que quiser impunemente. Promete aproveitar a sua experiência profissional para reduzir o numero de frutas. Sua política para mulheres visa à melhoria na prestação de serviços àquelas que gostam de verduras. Mas seu assessor já foi demitido trinta e duas vezes por outros candidatos e só aceitou trabalhar de graça se tivesse a liberdade para fazer trocadilhos de campanha.

 

Marcianita – A candidata da mulher. Apanhava do marido até entrar para uma religião qualquer. O começo foi difícil, pois, no banho sagrado proposto nos encontros, ficou na última fila de fiéis recebendo toda a carga negativa do lugar. Depois de sessões de terapia pagas por seu pai Astor, voltou com força total e hoje toma conta de um grupo chamado ONG, por falta de criatividade, que coleta moedas em ônibus. Do marido, nada se sabe.

 

Samuel Abib – Há quarenta e sete anos na câmara de vereadores, atua em causa própria, mas evita dizê-lo em público. Durante sua carreira política, construiu um patrimônio invejável – que conta com uma rede de supermercados – e hoje, além de tudo, gerencia estacionamentos e restaurantes em parques públicos. Uma pessoa íntegra que serve de exemplo para muitos; não tinha perspectivas e experiência alguma na política, mas conseguiu ser eleito mesmo assim, mostrando que você, cidadão comum, também pode.

 

Marques do Vermelhão – Participou de movimentos estudantis durante toda a sua vida. Tem quarenta e um anos e cursa filosofia há vinte na universidade estadual. Sua causa é simples: a causa dos estudantes sem causa. Desde o jardim de infância causava tumulto ao reclamar do alto preço do pastelzinho. Sua primeira greve – esta de fome – aconteceu na oitava série, quando não queria pagar dez cruzeiros por um prato-feito no restaurante do colégio. Figura presente a todas as passeatas pelo passe livre estudantil. Por acaso, sua família lhe dá todo o conforto e respaldo de que precisa, mas mesmo assim é engajado. Até, claro, o fim do ano letivo.

 

Marrubson – Sua origem, assim como a de seu nome, é uma incógnita. Professor de cálculo e violinista clássico, promete lutar por saúde, educação, moradia para todos, esporte, meio-ambiente, criatividade…

 

Etc.